quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A menina e o pássaro

Era uma vez uma menina de tranças que adorava passarinhos, mais do que isso, ela adorava o "seu" passarinho.
Ele era tão lindo, com suas cores fortes, de um tom de azul que ela nunca tinha visto igual. E como cantava! Todo dia, de manhã, a menina acordava com o canto do seu pássaro, como que dando um bom dia, como que saudando o dia da maneira mais delicada que existia.
A menina sentia-se feliz assim, dava amor ao pássaro e era retribuida com o canto mais lindo.
O tempo passava e ela percebia que seu bichinho já não era o mesmo, ele não cantava mais, parecia triste, parecia que o mundo dentro da gaiola e perto da menina não mais o satisfazia.
O pássaro, ela não sabia, sentia-se cansado, queria ganhar os ares, sentir o vento em suas penas e por mais que amasse a menina, achava que já estava na hora de partir.
Um dia, a menina, percebendo a intenção do pássaro, pediu uma última música e ele a cantou, lindamente, mais linda que nunca.
Ela chorou e disse baixinho: "Obrigada passarinho, você me fez muito feliz, eu vou sentir sua falta".
Ela abriu a gaiola e o pássaro saiu, voou até a janela e olhou para a menina. Ela sorriu.
O pássaro voou para o céu azul e como foi bom! Ele estava bem agora.





Voa avôzinho, você está bem agora.
+01-08-2010

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Armadilhas

Hoje acordei mais uma vez com aquela voz irritante dela. Ela não me deixa dormir nem mais dez minutos, nem cinco, nem meio minuto a mais.

Acordei obviamente mal humorado. Ela olha pra mim e diz, porque essa cara? Você não gosta mais de mim e blá blá blá...

Faço um chá e ligo a televisão pra ver se assisto alguma notícia bem ruim, só pra ter a sensação que a minha vida não é uma merda.

Lógico que ela não me deixa nem fazer isso. Ela ainda reclama da minha falta de interesse pelas coisas dela.

Sabe. Ela me fala. Eu ainda me lembro e olha que não faz tanto tempo assim, quando eu era sua musa inspiradora e você me escrevia poemas tão lindos. Hoje você só faz reclamar e reclamar e quando decide escrever sobre algo é sempre sobre o seu maldito passado. Sabe o que eu acho? Que o seu passado é a sua musa inspiradora! Ela disse assim, na lata, parecendo uma metralhadora, sem nem parar para respirar.

Meu, o que ela quer? Eu já não casei com ela? Já não vim para esse fim de mundo e deixei todo o resto pra trás POR ELA? Já não arrumei uma merda de emprego em uma repartição para que ela possa ficar “cuidando” da casa (como se ficar na internet vendo site de gravidez fosse cuidar de algo). Ela só enche o meu saco. Estamos sem dinheiro. Ela diz. Você gasta só com porcaria, desse jeito nunca vamos ter nada. Como compraremos o carrinho do bebê? MEU! Ela nem está grávida e se continuar desse jeito, eu é que não serei o pai!

Lógico que eu penso no passado, é óbvio! Antes as coisas fluiam tão melhor. Eu não me sentia preso, não me sentia asfixiado, como se tivesse colocado um saco plástico em volta da minha cabeça e o ar fosse acabando devagarinho, cada vez mais sem ar, cada vez mais pensando no antes, porque o presente me parece pesado demais.

Eu fujo para o passado, fujo para as minhas ex namoradas, que veja bem, não são nada comparadas ao que ela é, mas sei lá, elas me davam leveza, ou eu é que era leve. Pensar nos erros do passado é mais fácil do que ver os erros que agora cometo.

O pior é que eu a amo, amo mesmo, de verdade. Ela é/era uma garota sensacional. Inteligente, bonita, divertida, carinhosa e surpreendente. Só não esperava que a surpresa fosse essa. Ela murchar. E eu, segurar em minhas mãos uma flor que não tem mais vida nenhuma.

Tenho vontade de sumir daqui, deixar tudo e correr para bem longe. Não aguento mais arrumar desculpas para me afastar, não aguento mais olhar para o rosto dela e não conseguir enxergar mais um motivo para estar ao seu lado.

Desligo a televisão e vejo meus gatos brincando. Ela olha pra mim e sorri, eu sorrio de volta, sem muita vontade pra ser sincero, mas, sorrio.

Nisso a vida vai passando e eu fico preso na armadilha que eu mesmo criei. Nessa armadilha que as pessoas insistem em chamar de amor.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Não lembrar é esquecer?

"Faça uma lista de grandes amigos,
quem você mais via a 10 anos atrás.
Quem você ainda vê todo dia,
E quem você já não encontra mais..."

(Pega o telefone, disca e espera)

Eu:Oi, sabe quem tá falando?
Outro(a): Não, deveria saber?
Eu: Não sei, mas, sei lá, eu tinha uma esperança de que soubesse...
Outro(a): Mas não sei, desculpa, se deveria saber, ou não né? Se esqueci sua voz é porque algum motivo você me deu, mas afinal, quem é você?
Eu: Dei, dei o pior dos motivos, eu não continuei do seu lado quando deveria, você não tinha mesmo o porque lembrar minha voz.
Outro(a): É, eu me sinto sozinho(a) as vezes, talvez se não tivesse me deixado...
Eu: Você me perdoa?
Outro(a): Mas, como posso perdoar se nem sei quem você é? Eu fiquei sozinho(a) e te esqueci. Eu não posso perdoar alguém que não faz mais parte da minha vida.
Eu: Eu estou ligando pois gostaria de voltar a fazer parte dela, eu penso em você todos os dias, não há um dia em que me esqueça do quanto erámos felizes, eu lembro nitidamente, inclusive do seu sorriso quando me via, um sorriso de criança, de Natal, de céu azul, você não lembra mesmo?
Outro(a): Não, não lembro e se eu gostava tanto de você como me diz, eu acho que nem quero lembrar, quem me garante que não vai me deixar outra vez?
Eu: Mas você nem sabe quem eu sou pra saber se pode ou não confiar em mim.
Outro(a): E eu deveria confiar em quem nem conheço?
Eu: Mas, você me conhece, só não se lembra, eu sou a...
Outro(a): EU NÃO QUERO SABER QUEM É VOCÊ! Me deixe em paz! Eu já te perdi uma vez e não vou perder de novo! ME DEIXE EM PAZ!
(O telefone é desligado)

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Eu não sou flor


Sabe quando você sente que algo murchou? Eu não consigo encontrar palavra que defina melhor o que está acontecendo...
Paciência me falam. Vai passar outros dizem. E, até, é frescura.
Se olha no espelho, o que você vê? Eu vejo, vejo e não consigo encontrar n-a-d-a.
Está vazio.
Murchou e eu nem vi. Ou talvez tenha visto, mas fingi que não era comigo. Vamos beber, eu dizia. Beber é bom, nos faz esquecer. É, até o dia em que você não aguenta mais beber. Outro sintoma de que tudo murchou.
Eu deveria o que? Qual é o contrário de murcho? Eu não sou flor, nem quero ser. A vida não devia murchar diante dos meus olhos, eu não devia murchar diante dos olhos alheios.
Principalmente daqueles olhos tão adorados. Olhos cor de café fraco, quase chá. Olhos que não consigo mais encarar, pois não quero que vejam o que eu vejo, não quero que olhem para o vazio.
Cansei de ser estações do ano.

sábado, 27 de março de 2010

Morrendo lenta e dolorosamente

"Será que hoje ele me mata?" Pedro acordou em esse pensamento, de novo, como em todos os dias. desde muito tempo atrás.
Levantou-se, calçou os chinelos, foi ao banheiro e olhou-se no espelho como fazia todos os dias, olhou-se e o pensamento veio outra vez, "será que é hoje o dia em que ele me mata? Ou será que acontecerá algo que mudará tudo e me dará mais um dia?"
Seu futuro assassino já era um velho conhecido, tiveram seu primeiro contato durante umas férias escolares, quando Pedro ainda era um adolescente. No fim de um dia em que ele não fizera absolutamente nada, como é normal nas férias, conheceu esse predador e se viu desesperado, nunca em sua breve vidinha sentiu-se tão aterrorizado. Precisava fugir, fazer algo para livrar-se de coisa tão ruim, precisava mudar tudo, ser outra pessoa, para que ele nunca o encontra-se outra vez.
Fugiu de casa, foi para a capital, começou a vender chicletes no semáforo. Com o frio, as noites em bancos de praças e os outros perigos que enfrentava em sua nova vida, quase sentiu-se seguro outra vez, ele não o mataria. Até que em um dia de sol escaldante, quando Pedro estava sentado em um banco vendo a vida passar, o avistou. Mesmo depois de tanto tempo o reconheceu, e, principalmente, reconheceu como o fazia sentir-se. O desespero voltou.
Fugiu outra vez, foi para outra cidade, voltou a estudar, entrou em uma faculdade, se formou, conheceu alguém, casou-se, teve filhos, ganhou dinheiro. Tudo isso premeditadamente para fugir, escapar de seu algoz. Sim, o casamento e a família também podem ser uma fuga, e até nos esconde bem, por um tempo.
Sua vida ia passando, mas, nunca se via livre completamente, a unica diferença é que quando o desespero vinha não podia fugir, tinha família agora, não podia simplesmente desaparecer como das outras vezes.
E isso nos remete ao dia de hoje, com a visão de Pedro ao espelho. Ultimamente seu desespero havia retornado e aumentava cada dia mais, todos os dias eram uma espera do derradeiro momento de sua morte.
Será que estava imaginando coisas, será que existia mesmo o predador que o encarava em seus momentos mais ociosos, será que o desespero iria aumentar tanto a ponto de acabar com tudo?
O que fazer, o que mudar para se livrar disso? Pedro pensava e pensava sem conseguir chegar a conclusão alguma.
Mais uma vez olhou-se no espelho e o mesmo pensamento de todos os dias o invadiu: "Um dia esse Tédio ainda me mata".

sábado, 13 de março de 2010

Novo adeus

O que sempre esteve explícito é que você era dela e eu era dele. Disso tirávamos que nunca seríamos ou teríamos um nós.
Senti sua mão em meu corpo, quis prolongar aquele estado de semi-dormência para te sentir só um pouco mais.
Nossos fugazes encontros eram isso, nada mais do que prolongamentos de momentos, mãos e bocas, prolongávamos o gozo para que eu te sentisse só um pouco mais dentro de mim.
Toda vez era a mesma coisa, primeiro a volúpia, a vontade de ter e ser e ter mais um pouco. Depois vinha a satisfação e consequentemente a melancolia e o desespero.
Eu ficava esperando o momento em que você diria que precisava ir, pois ela o aguardava. Eu diria que tudo bem, pois, ele também me aguardava, abaixaríamos os olhos por um ou dois segundos e quando os levantamos eu já estaria com os meus encharcados, você pegaria minhas mãos e diria que não precisava ser assim, me amava, nós tínhamos uma escolha. Mas, você sempre soube que não, não tínhamos escolha, e era isso que eu sempre te lembrava aos gritos. O desespero tinha chegado.
Eu já perdi a conta de quantas vezes eu te disse que essa era a última, que nada se repetiria. Só para ouvi-lo concordar. E, quando estivéssemos com a certeza da despedida, eu o olharia súplice e você me beijaria, como se fosse nosso último momento na Terra.
Eu te amo, eu diria. E você sorriria com aquele seu meio sorriso que eu nunca sabia se era de alegria ou dor, assim, nos deixaríamos ficar, enroscados em mais um prolongamento.
Você vai estar aqui semana que vem não é? Não sei, isso não é certo... Mais um beijo, e com ele a certeza de que haveria uma semana que vem.
Nós éramos de outras pessoas, eu nunca seria sua e você nunca seria meu, mas, sempre haveria a semana que vem.
Adeus. Adeus.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O peso da alma

Deixa acabar assim
levemente
feito bolha de sabão
que flutua vagarosamente
mas, sempre estoura.

Deixa acabar assim
com aquele gosto
agridoce
que lembra nossos tantos
beijos de despedida.

Deixa acabar como começou
com aquele olhar
em meio a multidão.
Só que desta vez
você não volta.

Deixa acabar assim
sem raiva
mas, com alguma mágoa
perdida.

Deixa acabar assim
em paz.
Com o tempo, essa paz
se transforma no que deve.

Deixa acabar assim...

Com o tempo
tudo
se transforma em
nada.

Aí, acaba de vez.