sexta-feira, 23 de abril de 2010

Eu não sou flor


Sabe quando você sente que algo murchou? Eu não consigo encontrar palavra que defina melhor o que está acontecendo...
Paciência me falam. Vai passar outros dizem. E, até, é frescura.
Se olha no espelho, o que você vê? Eu vejo, vejo e não consigo encontrar n-a-d-a.
Está vazio.
Murchou e eu nem vi. Ou talvez tenha visto, mas fingi que não era comigo. Vamos beber, eu dizia. Beber é bom, nos faz esquecer. É, até o dia em que você não aguenta mais beber. Outro sintoma de que tudo murchou.
Eu deveria o que? Qual é o contrário de murcho? Eu não sou flor, nem quero ser. A vida não devia murchar diante dos meus olhos, eu não devia murchar diante dos olhos alheios.
Principalmente daqueles olhos tão adorados. Olhos cor de café fraco, quase chá. Olhos que não consigo mais encarar, pois não quero que vejam o que eu vejo, não quero que olhem para o vazio.
Cansei de ser estações do ano.

sábado, 27 de março de 2010

Morrendo lenta e dolorosamente

"Será que hoje ele me mata?" Pedro acordou em esse pensamento, de novo, como em todos os dias. desde muito tempo atrás.
Levantou-se, calçou os chinelos, foi ao banheiro e olhou-se no espelho como fazia todos os dias, olhou-se e o pensamento veio outra vez, "será que é hoje o dia em que ele me mata? Ou será que acontecerá algo que mudará tudo e me dará mais um dia?"
Seu futuro assassino já era um velho conhecido, tiveram seu primeiro contato durante umas férias escolares, quando Pedro ainda era um adolescente. No fim de um dia em que ele não fizera absolutamente nada, como é normal nas férias, conheceu esse predador e se viu desesperado, nunca em sua breve vidinha sentiu-se tão aterrorizado. Precisava fugir, fazer algo para livrar-se de coisa tão ruim, precisava mudar tudo, ser outra pessoa, para que ele nunca o encontra-se outra vez.
Fugiu de casa, foi para a capital, começou a vender chicletes no semáforo. Com o frio, as noites em bancos de praças e os outros perigos que enfrentava em sua nova vida, quase sentiu-se seguro outra vez, ele não o mataria. Até que em um dia de sol escaldante, quando Pedro estava sentado em um banco vendo a vida passar, o avistou. Mesmo depois de tanto tempo o reconheceu, e, principalmente, reconheceu como o fazia sentir-se. O desespero voltou.
Fugiu outra vez, foi para outra cidade, voltou a estudar, entrou em uma faculdade, se formou, conheceu alguém, casou-se, teve filhos, ganhou dinheiro. Tudo isso premeditadamente para fugir, escapar de seu algoz. Sim, o casamento e a família também podem ser uma fuga, e até nos esconde bem, por um tempo.
Sua vida ia passando, mas, nunca se via livre completamente, a unica diferença é que quando o desespero vinha não podia fugir, tinha família agora, não podia simplesmente desaparecer como das outras vezes.
E isso nos remete ao dia de hoje, com a visão de Pedro ao espelho. Ultimamente seu desespero havia retornado e aumentava cada dia mais, todos os dias eram uma espera do derradeiro momento de sua morte.
Será que estava imaginando coisas, será que existia mesmo o predador que o encarava em seus momentos mais ociosos, será que o desespero iria aumentar tanto a ponto de acabar com tudo?
O que fazer, o que mudar para se livrar disso? Pedro pensava e pensava sem conseguir chegar a conclusão alguma.
Mais uma vez olhou-se no espelho e o mesmo pensamento de todos os dias o invadiu: "Um dia esse Tédio ainda me mata".

sábado, 13 de março de 2010

Novo adeus

O que sempre esteve explícito é que você era dela e eu era dele. Disso tirávamos que nunca seríamos ou teríamos um nós.
Senti sua mão em meu corpo, quis prolongar aquele estado de semi-dormência para te sentir só um pouco mais.
Nossos fugazes encontros eram isso, nada mais do que prolongamentos de momentos, mãos e bocas, prolongávamos o gozo para que eu te sentisse só um pouco mais dentro de mim.
Toda vez era a mesma coisa, primeiro a volúpia, a vontade de ter e ser e ter mais um pouco. Depois vinha a satisfação e consequentemente a melancolia e o desespero.
Eu ficava esperando o momento em que você diria que precisava ir, pois ela o aguardava. Eu diria que tudo bem, pois, ele também me aguardava, abaixaríamos os olhos por um ou dois segundos e quando os levantamos eu já estaria com os meus encharcados, você pegaria minhas mãos e diria que não precisava ser assim, me amava, nós tínhamos uma escolha. Mas, você sempre soube que não, não tínhamos escolha, e era isso que eu sempre te lembrava aos gritos. O desespero tinha chegado.
Eu já perdi a conta de quantas vezes eu te disse que essa era a última, que nada se repetiria. Só para ouvi-lo concordar. E, quando estivéssemos com a certeza da despedida, eu o olharia súplice e você me beijaria, como se fosse nosso último momento na Terra.
Eu te amo, eu diria. E você sorriria com aquele seu meio sorriso que eu nunca sabia se era de alegria ou dor, assim, nos deixaríamos ficar, enroscados em mais um prolongamento.
Você vai estar aqui semana que vem não é? Não sei, isso não é certo... Mais um beijo, e com ele a certeza de que haveria uma semana que vem.
Nós éramos de outras pessoas, eu nunca seria sua e você nunca seria meu, mas, sempre haveria a semana que vem.
Adeus. Adeus.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O peso da alma

Deixa acabar assim
levemente
feito bolha de sabão
que flutua vagarosamente
mas, sempre estoura.

Deixa acabar assim
com aquele gosto
agridoce
que lembra nossos tantos
beijos de despedida.

Deixa acabar como começou
com aquele olhar
em meio a multidão.
Só que desta vez
você não volta.

Deixa acabar assim
sem raiva
mas, com alguma mágoa
perdida.

Deixa acabar assim
em paz.
Com o tempo, essa paz
se transforma no que deve.

Deixa acabar assim...

Com o tempo
tudo
se transforma em
nada.

Aí, acaba de vez.

sábado, 14 de novembro de 2009

Despedida

Finalmente fui embora daquela cidadezinha rodeada de bucólicas montanhas. O mais engraçado é que quando cheguei lá tudo era lindo e novo e misterioso, com suas ruas de paralelepípedos, suas igrejas de ouro e seus bares vintage, só que quanto mais se aproximava o momento de partir, mais a cidade que eu tanto amei ficava insuportável. Mas, desconfio que não era a cidade que piorava e sim as pessoas que nela moravam. Quando conhecemos alguém podemos ter uma antipatia imediata ou não, podemos gostar já de cara, existem pessoas - foi assim no final - que eram tão legais e acabaram se mostrando totalmente idiotas. Porque, meu Deus, alguém vai brigar por causa de uma opinião nossa, isso quando essa mesma pessoa foi quem nos disse para sermos sinceros, e porque essa mesma pessoa não fala o que sente e porque está brava mesmo quando pedimos um milhão de vezes para faze-lo? Eu juro que não entendo, e também juro que isso me cansou e me fez, no final, desgostar bastante de lá.
Bom, mas quanto mais pessoas ridiculas encontramos pelo mundo, mais pessoas que valem a pena também aparecem, e comigo não foi diferente. Posso dizer que por todo o tempo que fiquei lá, algumas pessoas realmente me fizeram feliz. Posso citar como exemplo uma chinesinha que não sabe contar piada, mas que é tão inteligente que até assusta, ou um pseudo-intelectual ichsano (haha) que usava bigode e gostava de sair de pijamas pela rua, ou até um pagodeiro que, juro, não tinha coração (já viram algum?). São pessoas que fizeram meus dias coloridos e que me fizeram ver que uma cidade bucólica no meio das montanhas pode ser chata, mas tem seus dias bons, e esses minha gente, valem mais que uma sobremesa boa do bandeijão (hehehe).
Acho que no fim das contas eu achei o que tinha ido procurar tão longe de casa, achei a-m-a-d-u-r-e-c-i-m-e-n-t-o. Valeu a pena. =D

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

-Porque você esconde seu rosto entre os cabelos, Anne?
-Ah, sei lá. Via as atrizes nas novelas, todas lindas e misteriosas, eu acho que quero parecer misteriosa também.
-Pois a mim você não parece nada disso, só parece o que realmente é, uma criança assustada.

(é mais ou menos assim que me lembro do livro)

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Insonia

Me deitei e dormi de imediato, estava cansada, o dia tinha sido longo e difícil.
Ah! Acordei assustada, não sei porque, acho que algum pensamento meu me assustou e acordei. Olhei no relógio, 02:10. Fechei os olhos para continuar a dormir, virei de barriga para baixo e pude sentir meu coração batendo de encontro ao colchão.
Tum tum tum tum tum tum
Tumtumtumtumtumtumtum
Tuntuntuntuntuntuntuntun
TUNTUNTUNTUNTUNTUN
Droga, merda, saco! Estou com crise de ansiedade a uma hora dessas, parabéns! Tentei me virar, de um lado para o outro e nada da sensação ruim passar. Estava com sede, mas fiquei com preguiça de ir a cozinha buscar água. 03:25. As horas passavam e eu me virando na cama, levantei e fui pegar água, bebi e não adiantou, meu coração parecia que ia explodir e a falta de ar era enorme. Deitei de barriga para cima e abri os olhos.
Tum tum tum tum tum tum
Fechei os olhos.
TUNTUNTUNTUNTUNTUN
Ótimo, não posso fechar os olhos que é capaz de morrer de ataque cardíaco. 05:49. A sensação não passava, meus olhos ardiam, me estômago se revirava e as horas insitiam em passar sem me deixar dormir. 06:30, escutei meu pai fazendo café na cozinha e a luz da manhã começava a invadir meu quarto/sala.
TUNTUNTUNTUNTUNTUN
Para coração! Que merda, droga, saco! O enjoo vinha cada vez mais forte, já não conseguia nem ficar de olhos fechados. Antes não tivesse coração, estaria dormindo tranquila, sem pensar besteiras, sem ficar triste por coisas que simplesmente acontecem, sem ter o perigo de morrer de ataque cardíaco com vinte e cinco anos. Merda, droga, saco!
TUNTUNTUNTUNTUNTUN
Meu humor estava cada vez pior, juntamente com meu estômago que teimava em enjoar por causa da minha crise.
MERDA, DROGA, SACO!
Desisti de tentar dormir.